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TV ITIÚBA

21 de fevereiro de 2013

Desescolarização: precisamos mesmo das escolas?

Lugar de criança é na escola! Será?

Karpar Hauser foi um garoto com uma história bem curiosa. Reza a lenda que ele passou os primeiros anos de sua vida aprisionado em uma cela escura, alimentado apenas por pão e água. Nesse primeiro período, ele não tinha contato nenhum com qualquer pessoa e, menos ainda, com todo o mundo que cercava as paredes que o prendiam.

Num determinado momento, o garoto foi solto e, pelos anos de reclusão forçada, conheceu o mundo sem nenhum tipo de conhecimento. Sem experiência de vida e sem possuir ao menos uma língua para poder se comunicar, o garoto aprendeu suas primeiras palavras e, posteriormente, começou a falar, assim como uma criança que começa a viver.

Sua aparição se deu em Nuremberg, na Alemanha, supostamente com 15 anos de idade, com uma carta endereçada ao capitão da cidade, pedindo para ser um cavaleiro, como seu pai. Mais à frente, Kaspar se mostra uma pessoa muito inteligente, com excelentes aptidões para música, tricô e jardinagem.

Mas isso não impediu que o garoto fosse tido como estranho e selvagem, tudo pelo simples fato de não conseguir entender e participar das convenções sociais da época (Sua aparição em Nuremberg aconteceu em 1828). Havia, na época, relatos de que ele seria membro da nobreza alemã. Kaspar tinha talento, um suposto sangue nobre, mas nada disso o ajudou a superar anos de isolamento.
Escolas vêm nos mais variados tamanhos e formatos. Você pode ter frequentado uma instituição tradicional, humanista, democrática ou construtivista. Uma escola de rico ou de pobre. Pode ter adorado ou detestado – se você tem filhos, ou quando os tiver, gostaria que estudassem na mesma escola? Não é disso, porém – do que faz uma escola boa ou ruim – que trata este texto.
Pouco interessa, nesse contexto, comparar as diferentes abordagens pedagógicas – e sim um fundamento tão central do atual modelo de Educação, quanto raramente colocado em questão: a própria existência de escolas.
Precisamos mesmo delas?

A tarefa da Educação

Escola e educação são coisas diferentes. As gerações mais novas são recebidas pelo povo que já está por aí há mais tempo e é nossa tarefa apresentar-lhes a vida e o mundo, procurar oferecer uma boa ideia de como as coisas funcionam e do que esperar das manhãs de domingo.
Afinal, não nascemos humanos. Dependemos de ambientes humanos, das relações sociais e dos vínculos afetivos culturalmente organizados para nos humanizarmos. Sem isso, somos Kaspar Hauser. O processo de formação integral de um ser humano, em suas variadas dimensões, isso é Educação.

A invenção da Escola

Sendo essa a tarefa maior, em contrapartida, a Escola surge como estratégia. Só muito recentemente na história da civilização, inclusive, o processo de ensino-aprendizagem passa a contar com um lugar específico para isso – uma instituição fechada, cujo objetivo é manter os jovens exclusivamente dedicados aos estudos. Ao longo da maior parte da História, as pessoas aprendiam as coisas da vida na própria vida, no “mundão”, onde as coisas aconteciam e entre as pessoas que faziam as coisas acontecerem.
Disse o Mario Sergio Cortella (provavelmente inspirado em Foucault):
Há lugares que têm portas para as pessoas não entrarem – como os cinemas, teatros e estádios de futebol; e há lugares que têm porta para as pessoas não saírem: como as penitenciárias, os hospícios e as escolas.
Se a Educação é “o que devemos aprender” e a Escola é o “como devemos aprender”, apresento um argumento central: trata-se de uma péssima estratégia para a Educação tirar pessoas do lugar exato que deveriam aprender (o mundo) e colocá-los num ambiente distente, virtual (a escola). Examinemos a lógica fundamental do sistema.
  • Retiramos as crianças e jovens do mundo para que possam estudar… o mundo?
  • Privamos nossos filhos da vida cotidiana como forma de prepará-los para… a vida?
Isso equivale a treinar um nadador procurando mantê-lo afastado da piscina.

Um novo profissional: o educador curador

Em um modelo aberto, de agente do sistema, dedicado à reprodução do status quo, o profissional da educação passa à função criativa de mentor, curador ou inspirador de processos de amadurecimento e formação. Uma vez que, nos dias de hoje, o problema deixa de ser o acesso ao saber e passa a ser o excesso de opções, a função do educador (ou da educadora) envolve, fundamentalmente, as habilidades:
  • De parteira: ajudar o aprendiz a entrar em contato com suas inclinações (com seu coração, com sua verdade, com sua interioridade), apropriando-se de seus anseios, conflitos e contradições. Dar nascimento à individualidade.
  • De guia de viagem: apontar as trilhas acidentadas, os terrenos escorregadios e os becos sem saída e selecionar, dentre o vasto oceano de possibilidades, direções favoráveis para a realização de seu potencial único e de suas aspirações mais profundas.
O educador(a) companheiro de jornada, portanto, deverá estabelecer com o aprendiz uma relação mais próxima, autêntica e pessoal em comparação com as relações professor-aluno institucionalizadas, fragmentadas e autoritárias das séries e disciplinas escolares no sistema atual.
Esse modelo que relativiza a hegemonia do sistema formal de educação e busca alternativas consistentes de formação humana (e não apenas cognitiva-intelectual), que insere na vida e na cultura (e não apenas na academia e no mercado de trabalho), é uma realidade emergente, está borbulhando, e será desenhado pelas pessoas ousadas que enxergarem e tomarem as primeiras iniciativas. A hora é agora.
Se a ideia interessou, o nosso autor vai participar da HUB-ESCOLA de Outono, com a oficina “Fim das escolas: empreendedorismo e desescolarização”.
Dia 19 de abril, quinta-feira, às 14h00.
Andre Camargo Costa

André Camargo é Mestre em Psicologia e Professor Universitário. Tem dois filhos, cinco aquários e um livro publicado. É fundador do Jabuticaba - espaço de crianças na Casa Jaya - e co-fundador da Academia de Escrita (.com). Outros artigos escritos por 




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